Equipe de Atendimento Integrado do projeto Respeito é Nosso Direito, realizado pela Pontos Diversos, no "Carnaval de Salvador 2026: Um Estado de Alegria, e Defesa de Direitos"
- SADOQUE
- há 22 horas
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O que me conecta?
Essa é a pergunta que me acompanha a cada nova experiência profissional, como um fio condutor que confere sentido à minha atuação enquanto interventor social.
Entre os dias 12 e 17 de fevereiro de 2026, integrei a equipe de atendimento integrado do projeto Respeito é Nosso Direito, promovido pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia e executado pela Pontos Diversos, durante o Carnaval de Salvador, uma das manifestações culturais mais expressivas do estado. Minha atuação concentrou-se no circuito Campo Grande, no período compreendido entre 20h e 4h, junto a uma equipe multiprofissional voltada à garantia de direitos em contexto festivo de grande concentração popular.

Ainda que minha função tenha sido primordialmente técnica, orientada pelo arcabouço teórico-metodológico do serviço social, a experiência exigiu um exercício contínuo de autorreflexão acerca do lugar de quem intervém. Afinal, o interventor também é atravessado pelas expressões da questão social, ainda que em posição distinta daqueles a quem se destina a ação. As mazelas sociais que emergem nos circuitos da festa não são alheias à minha própria trajetória; apresentam-se como espelho, ferida e alerta.
Diante disso, adotei uma postura deliberadamente reflexiva e estrategicamente orientada, ainda nos momentos de interação mais corriqueiros. Tal posicionamento mostrou-se fundamental para o estabelecimento de vínculos profissionais consistentes, sobretudo com duas colegas de equipe: Débora Assis, advogada, e Graciandre, assistente social. Com elas, compartilhei não apenas o espaço de trabalho, mas a construção coletiva de respostas possíveis diante das situações-limite que se apresentavam.

No primeiro atendimento realizado pela equipe, mesmo diante da imediaticidade da ocorrência ali, concreta, diante de nós, meu pensamento remetia aos cenários de intervenção estudados durante a graduação, como se o percurso acadêmico retornasse, não como memória distante, mas como repertório vivo, convocado pela urgência do real. A partir de então, cada caso foi tratado com rigor técnico: estudo sistemático, discussão colegiada e articulação interdisciplinar, de modo a assegurar eficácia e eficiência às intervenções.
Os procedimentos adotados na abordagem inicial à elaboração do relatório circunstanciado, foram informados por uma escuta qualificada, capaz de apreender, para além do relato imediato, as múltiplas determinações que constituem a singularidade de cada sujeito atendido. Essa escuta, em determinados momentos, levou-nos a divergir de interpretações superficiais, orientando o olhar não para o fato em si, mas para o significado que ele assume na trajetória de vida do indivíduo, considerando as mediações socioculturais que conformam a circunstância apresentada.
Atuar como agente interventor em situações de violação de direitos, contribuindo para que o acesso à justiça se efetivasse em pleno curso da festa, conferiu à minha prática um sentido renovado. Acompanhar a minúcia dos processos, da escuta ao encaminhamento, da articulação institucional à efetivação da garantia, permitiu-me compreender, na prática, a potência do trabalho em rede. Atuei como conector entre as partes, sendo também parte dessa engrenagem complexa e necessária.
Concluo essa experiência com um sentimento de gratidão e orgulho profissional. Gratidão pelos colegas que cruzaram meu caminho, pelo aprendizado compartilhado, pela confiança depositada. E, reconheço, também pelo privilégio, não extensivo a todos, de contar com um motorista exclusivo que me assegurou o retorno para casa ao final de cada madrugada de trabalho.
A cada pessoa que torna possível esse trabalho, desafiador, conflitante, mágico e magnífico, o meu mais sincero muito obrigado.


























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